O parlamento ucraniano votou por ampla maioria para devolver a autonomia total aos principais combatentes da corrupção do país, encerrando duas semanas turbulentas em que sua sobrevivência — e a credibilidade de Kiev junto aos seus parceiros ocidentais — esteve em jogo. A reversão coloca a Independência das Agências Anticorrupção no centro da narrativa de reformas da Ucrânia, enquanto o país luta contra a invasão russa e busca a adesão à União Europeia.
Aumenta a pressão pela independência das agências anticorrupção
Quando o presidente Volodymyr Zelenskyy aprovou, em meados de julho, uma legislação que subordinaria o Escritório Nacional Anticorrupção (NABU) e a Promotoria Especializada Anticorrupção (SAPO) ao Procurador-Geral, grupos da sociedade civil alertaram que anos de progresso arduamente conquistados corriam o risco de serem apagados. Jovens manifestantes lotaram as ruas de Kiev, apesar das restrições impostas durante a guerra, insistindo que a independência das Agências Anticorrupção era inegociável para a preservação da confiança pública.
Diplomatas ocidentais se uniram. Bruxelas e as capitais do G7 lembraram Kiev de que uma arquitetura anticorrupção robusta é uma condição formal para as negociações de adesão à UE e a continuidade da ajuda financeira. Diante de uma rara convergência de agitação interna e pressão internacional, o gabinete presidencial concordou em recuar e solicitou aos legisladores que elaborassem um projeto de lei corretivo.
Parlamento anula projeto de lei presidencial controverso
Em 31 de julho, a Verkhovna Rada convocou sua primeira sessão televisionada ao vivo desde o início da invasão em larga escala da Rússia em fevereiro de 2022. Na câmara lotada, 331 deputados votaram a favor da nova medida — muito acima dos 226 necessários —, restaurando a independência das Agências Anticorrupção e sinalizando que a resistência da elite à supervisão não seria mais tolerada. Apenas nove deputados se recusaram a votar, e nenhum se opôs à mudança, um resultado recebido com aplausos prolongados da galeria pública.
A velocidade da reviravolta foi dramática. Apenas duas semanas antes, o projeto de lei anterior de Zelensky havia sido aprovado em um processo acelerado. Críticos acusaram a presidência de blindar aliados políticos sob investigação, acusação que o governo nega. Líderes parlamentares insistem que o episódio ilustra o funcionamento dos freios democráticos sob as mais difíceis condições de guerra.
Protestos Domésticos e Sinais Internacionais
A mobilização popular foi a maior desde a invasão de fevereiro de 2022. Grupos de estudantes, veteranos e redes de voluntários realizaram vigílias em frente ao parlamento, apesar dos alertas de ataque aéreo. Suas faixas — "Sem Integridade, Não Há Vitória" e "Tirem as Mãos do NABU" — expressavam um temor mais amplo de que a luta contra a Rússia não deveria ser usada para minar as instituições de fiscalização internas.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, saudaram a votação em poucos minutos, chamando-a de "um passo essencial no caminho da Ucrânia rumo à UE". Bruxelas, no entanto, insinuou que o impulso deve continuar, lembrando Kiev de que a Independência das Agências Anticorrupção é apenas um aspecto de uma agenda mais ampla de Estado de Direito que inclui a reforma judicial e a execução da recuperação de ativos.
O que a nova lei anticorrupção oferece
O estatuto restabelece a autonomia organizacional e orçamentária do NABU e do SAPO, encerrando os planos de colocá-los sob supervisão do Ministério Público. Introduz testes anuais de polígrafo para funcionários com acesso a credenciamento de segurança, uma salvaguarda que, segundo os legisladores, impedirá a infiltração da inteligência russa. As agências mantêm a autoridade para abrir processos contra altos funcionários, apreender bens e buscar cooperação internacional em extradições.
Criados em 2015 com financiamento europeu e americano, o NABU e o SAPO foram concebidos para contornar redes de clientelismo arraigadas em órgãos policiais tradicionais. Seus casos já incluem alegações contra o ex-vice-primeiro-ministro Oleksiy Chernyshov e o empresário Timur Minditsch, antigo aliado do presidente. No início deste mês, a polícia alemã, atendendo a um pedido do NABU, realizou buscas na vila bávara do ex-assessor presidencial Rostyslav Shurma, sob suspeita de peculato.
Implicações para a adesão à UE e à ajuda ocidental
Ao restabelecer a Independência das Agências Anticorrupção, Kiev remove um obstáculo iminente ao mecanismo de € 50 bilhões da UE que financia salários e programas sociais. Autoridades da UE admitem, em particular, que qualquer retrocesso teria atrasado as negociações de adesão, que deveriam começar ainda este ano. Washington, que cofinancia as agências, vinculou a assistência futura em segurança a parâmetros mensuráveis de combate à corrupção, argumentando que a eficácia da linha de frente e a governança interna são inseparáveis.
Os mercados financeiros responderam positivamente; os rendimentos dos eurobonds ucranianos caíram ligeiramente, com os investidores interpretando a votação como evidência de resiliência institucional. Espera-se agora que os bancos de desenvolvimento retomem o desembolso de empréstimos para reconstrução, que haviam sido suspensos enquanto aguardavam esclarecimentos sobre os padrões de governança.
Desafios persistentes na luta contra a corrupção
Apesar da vitória legislativa, órgãos de fiscalização alertam que os gargalos na justiça criminal persistem. O sobrecarregado sistema judiciário ucraniano ainda luta para proferir veredictos finais em casos complexos de corrupção, e a interferência política não pode ser descartada. O Serviço de Segurança da Ucrânia prendeu recentemente um funcionário do NABU acusado de espionar para Moscou, ressaltando os riscos de segurança que os agentes anticorrupção enfrentam em tempos de guerra.
A Transparency International classifica a Ucrânia entre os Estados mais corruptos da Europa, e pesquisas mostram que a paciência da população é limitada. Os reformistas argumentam que financiamento sustentado, plataformas digitais de evidências e nomeações independentes para o judiciário são necessários para traduzir a Independência das Agências Anticorrupção em condenações duradouras. À medida que o conflito com a Rússia se acirra, a capacidade de Kiev de manter acesa a chama das reformas continuará sendo um teste decisivo para os aliados — e para seus próprios cidadãos, que exigem tanto a vitória no front quanto a integridade interna.
